O dia dos namorados, em alguns países comemorado em fevereiro, no Dia de São Valentim, é uma data especial e comemorativa, na qual se celebra a união amorosa entre casais.
Porém, sabemos que nem tudo são flores, por isso escolhi um tema que pudesse ser útil para o relacionamento, ou seja, que ajudasse a evitar que o amor que comemoramos hoje seja transformado em peso e sofrimento amanhã.
Além disso, o tema também se justifica porque estamos vivendo um momento de grande tensão e polarização no país, com muitas discussões acaloradas e exposições nas redes sociais, culminando em embates destrutivos e uma intolerância generalizada.
Cada vez mais, está ficando impossível encontrarmos conversas construtivas, em que possamos entender, respeitar e quem sabe aprender com outros pontos de vista.
Temos que criar espaços para que possamos resgatar e praticar a escuta ativa, ou seja, aquela em que quem nos fala pode nos acrescentar algo, em que de repente não havíamos pensado antes, mas para que isso ocorra temos que estar abertos e atentos, para não cairmos na mesmice de achar que o nosso ponto de vista deve prevalecer sempre.
Uma ferramenta bastante utilizada na mediação de conflitos, e sobre a qual decidi escrever nesta data especial, é a “comunicação não violenta”. Ela se presta a ajudar muitos casais a desenvolverem outra forma de se comunicarem, apesar de não se restringir apenas a casais, podendo também ser utilizada nos relacionamentos entre amigos, familiares, colegas de trabalho, ou seja, em qualquer relação humana.
A comunicação não violenta, diferentemente do que as pessoas pensam, não funciona apenas para aquela relação em que há gritos, xingamentos ou desrespeito, mas também para aquelas relações em que tratamos o outro de forma diferente apenas por julgá-lo como menos entendedor disso ou daquilo, menos inteligente, ou para aquela pessoa que costuma responder antes mesmo de ter ouvido, no intuito de fazer prevalecer seus próprios pensamentos.
Devemos estar alertas e nos avaliar a todo momento: quando estamos ouvindo um relato de um amigo em um almoço de sábado, ou quando estamos discutindo em casa com nosso cônjuge e companheiro(a), ou até mesmo em uma reunião profissional, para não ficarmos ouvindo e já pensando no que devemos ou podemos responder. Também de nada serve, ao longo da conversa, já estarmos formulando nossa “autodefesa”, ou a resposta da narrativa, pois estaremos transformando o diálogo em debate, e acabando muitas vezes com qualquer chance de aproveitar o ponto de vista daquele que nos fala, e de aprender algo novo.
A expressão “comunicação não violenta” foi difundida pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg, e já havia sido utilizada por Gandhi, que pregava a compassividade humana, ou seja, abolir o juízo de valor sobre aquilo que se escuta, superar aquela vontade enorme de responder por responder, e, em vez disso, entender o narrador enquanto ser humano, em toda sua complexidade. Ou seja, através da comunicação, conectar-se ao ser humano que está diante de nós, sem hierarquia, sem julgamento de certo ou errado, de bom ou ruim, ou seja, despir o pensamento de qualquer julgamento prévio, e fazer apenas a escuta atenta do que nos está sendo falado.
A violência da comunicação não está apenas no jeito de falar, mas também no descaso, na desatenção. Sabendo que aquela pessoa que me fala é tão importante quanto eu que escuto, devo prestar atenção no que ela(e) me diz, ou seja, estou falando com um ser humano que tem necessidades, interesses, medos e angústias, assim como eu.
A difusão da ideia de que é preciso competir para vencer, sempre e em qualquer circunstância, traz consigo a falsa premissa de que é preciso ganhar todo debate ou discussão e de que, portanto, o outro nem deve ser ouvido, porque vai mesmo perder.
É mais do que hora de resgatar o interesse pelo bom diálogo, aquele em que eu escuto para compreender, para tentar entender melhor o outro, para saciar a curiosidade pelo novo, e pela vontade de tentar descobrir o que está nas entrelinhas, o que se esconde na narrativa daquele que nos fala, o que vem do seu coração.
Quando o objetivo do diálogo voltar a ser esse, as próprias relações passarão por transformações positivas, baseadas no “ganha-ganha”: tanto quem ouve quanto quem fala terão muito a lucrar com uma escuta ativa e não violenta.
A angústia, no relacionamento, decorre muitas vezes da ausência de diálogo: não nos permitimos ouvir o outro, seus pontos de vista, suas frustrações, suas carências.
Fica aqui uma boa dica, que podemos incorporar na nossa comunicação diária: falar com sinceridade, humildade, na primeira pessoa, ou seja, expondo o seu “eu”. Veja esse exemplo: “Marido, quando você esqueceu do nosso aniversário de casamento ontem, eu me senti insegura e esquecida, e isso acabou me deixando angustiada, por sentir que você não me ama mais.” Veja que, nesta frase, não há acusações, há somente a narrativa de como a esposa se sentiu em uma ocasião específica. Seria diferente de uma narrativa destrutiva, como por exemplo: “Marido, você esqueceu o nosso aniversário de casamento, porque não me ama mais.”
A boa comunicação é fundamental na construção e na consolidação de laços mais profundos com as pessoas que passam pela nossa vida, e nos dá a oportunidade de escutarmos de outra maneira, sem pré-julgamentos.
Ao adotarmos essa importante ferramenta, vamos nos dar conta do tempo que perdemos por não termos conhecido melhor aquela pessoa, simplesmente porque não nos preocupamos em ouvi-la de verdade.