A nova advocacia

Lembro-me até hoje das aulas de Direito Romano no meu primeiro ano da Faculdade. Naquela época, conhecer História, Filosofia e até mesmo saber latim era considerado um diferencial na formação acadêmica. Iria se destacar na profissão o advogado que melhor soubesse citar, nos seus arrazoados, os tradicionais brocardos latinos, mostrando ilustração e preparo. Assim também, teria sucesso o estudante que decorasse teorias e princípios de uma Justiça milenar, nem sempre adaptada às mudanças da sociedade, que ocorriam numa velocidade muito maior do que códigos e leis eram capazes de prever e, menos ainda, de regulamentar.

A necessidade de modernizar o ensino do Direito e a postura dos profissionais da área se escancarou com a chegada da era digital. Como num clique, o Direito e seus operadores tiveram de se reinventar. Os cursos tradicionais tiveram de introduzir matérias eletivas, onde a “decoreba” não tinha mais lugar. O raciocínio rápido e a linguagem clara e direta é que assegurariam o sucesso do futuro advogado. Para exemplificar, vale lembrar que, em meados de 2013, foi implantado (tardiamente) em São Paulo o “processo eletrônico” e, nas petições, já não fazia sentido deixar 12 espaços duplos para os despachos, muito menos tinham cabimento aquelas inúmeras reverências ao Juiz no meio da peça, pedindo vênia para todo lado e deixando a peça exageradamente longa e confusa, cheia de juridiquês…

Não só nos aspectos formais a mudança foi rápida e profunda. Também na própria aplicação do Direito e da Justiça. De um dia para outro, nosso cabedal de leis já não era suficiente para disciplinar matérias que antes sequer existiam. Como deter o avanço da tecnologia nas mais diversas áreas da sociedade sem novas regulamentações? Como deter o avanço das locações via AirBnb com base na velha lei do inquilinato? Como frear o transporte por aplicativo com base em alguma defasada legislação municipal? Como impedir o surgimento quase diário de novos aplicativos dando acesso a tudo e nem sempre dando proteção a seus usuários?

Ora, é imperioso que o Direito, através de seus operadores, esteja sempre atualizado e apto a promover a ordem e a justiça nas mais diversas situações que lhe são submetidas. O mundo evolui, as atividades humanas evoluem, e cabe ao Direito e à Justiça não se distanciarem dessa evolução, adaptando-se plenamente aos novos tempos, pois somente assim poderão ser úteis à manutenção da paz social.

O advogado, figura essencial para operar e garantir a aplicação do Direito ao caso concreto, também precisa evoluir e, mais do que isso, inovar. E inovar profundamente! Além de atualizar constantemente seus conhecimentos, o novo advogado precisa também mudar sua mentalidade, sua postura, seu modo de agir no dia a dia da profissão.

A nova advocacia é mais tecnológica e ao mesmo tempo mais humana. Para ter sucesso, o profissional do Direito hoje precisa SER, muito mais do que saber. Ser colaborativo, procurar entender a situação antes de enfrentá-la, buscar a melhor solução para todos os envolvidos e não só a “vitória” para seu cliente. E antes de judicializar qualquer questão, ao aconselhar seu cliente, deve ponderar que o processo judicial é uma fonte de gastos e desgastes, é extremamente moroso na falta de um acordo inicial, e seu desfecho é incerto e nem sempre satisfatório.

A evolução sempre pressupõe a busca de novos e melhores caminhos.

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